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segunda-feira, 26 de maio de 2014

a doença do ainda










    A mesma história, apenas outro personagem
                                     (2001/2002)
     Passada a fase da criminalidade veio uma época melhor no sentido de viver sem risco de morte iminente, mas ainda não sabia como me divertir sem drogas, o que inclui o álcool. Sempre gostei muito de rock'in roll
e nessa época passei a viver ao estilo drogas e rock'in roll, então me tornei ainda mais alienado, as mesmas
músicas, pessoas,drogas e lugares de sempre.

Trabalhando nessa oficina em Nova Iguaçu, aprendi a profissão que me ajudou unicamente a manter meu vício até hoje, me especializei em pintura de automóveis o que me rendia uma boa grana. E também nessa época peguei o hábito de beber religiosamente ao final do expediente, sempre na companhia dos colegas de trabalho.

Eu estava estudando, fazia o primeiro ano do segundo grau e até hoje eu não sei como eu conseguia
frequentar as aulas, pois estava sempre sob efeito de álcool ou maconha.Nessa época eu ainda conseguia controlar o uso de cocaína, normalmente usava aos finais de semana até por que eu recebia por mês e só pegava vale de quinze em quinze dias, mais tarde eu me tornaria mestre em desculpas para vales diários.

Era ano de 2001, nessa época eu me lembro de sentir vontade de mudar de vida, ainda não estava completamente obcecado pela droga e tentei por várias vezes parar de usar, pena não ter pedido ajuda enquanto era cedo, eu estava incomodado com o que as drogas estavam fazendo eu me tornar, só não imaginava que ela ainda iria me humilhar de todas as formas e me colocar sozinho nas ruas.

Nesse ano tive ainda uma outra experiência terrível por conta das drogas e que envolveu a polícia. Certo dia após sair do trabalho mais cedo resolvi passar na boca de fumo e comprar maconha. Lá, comprei o que queria e quando estava saindo do local fui parado pela polícia, que já sabiam de onde eu estava vindo.

Ainda tive tempo de dispensar o flagrante, só que eles não se deram por satisfeitos com o que eu contei que fazia ali e me enfiaram algemado na viatura me levando para uma usina de reciclagem de lixo desativada que ficava em um local deserto lá pelas redondezas. Dessa vez eles não me encostaram um dedo, entretanto
não foi nada legal o que fizeram, pois como sempre queriam informações sobre o tráfico e nada mais.

Como eu já havia deixado claro que não falaria nada por que não sabia de nada, um dos policiais foi até a mala da viatura e pegou um revólver velho e veio na minha direção com ele, chegando perto ele me disse que só perguntaria mais uma vez e caso eu não colaborasse com eles eu não teria nem como me arrepender.
Como eu não falei nada ele apontou a arma para o meu peito e apertou o gatilho, mas a arma não disparou.

Eu sai de mim por alguns segundos mas voltei rapidamente quando ouvi ele dizer que o primeiro falhou mas o segundo não iria falhar. Eu estava em estado de choque e não conseguia falar, foi quando ele novamente apontou a arma, e como se fosse bater com o cano na minha cara fez o disparo desviando do meu rosto por alguns centímetros me deixando completamente surdo.

Apavorado decidi contar a eles que eu havia dispensado a maconha, então retornaram comigo para buscar
a droga. Quando encontraram a erva vieram até a mim e me perguntaram se meus pais sabiam que eu usava drogas, eu disse que não, e eles disseram que então hoje eles ficariam sabendo. Eu não tinha o que fazer então levei eles até minha casa e para o meu azar meu pai estava lá.

Foi aquele rebuliço, com a viatura parada na minha porta todos os vizinhos vieram saber o que estava acontecendo, por que eu ainda estava algemado no banco de trás. Meu pai antes de falar qualquer coisa mandou eles me tirarem as algemas por que ele podia não saber o que eu fizera, mas sabia que eu não era
bandido. E ai após uma breve conversa eles foram embora me mandando tomar juízo. Só depois meu pai me contou que eles pediram 500 reais para não me levar para a delegacia para assinar como usuário.

A reação de meu pai não foi nem um pouco daquilo que eu esperava, ele simplesmente me deu uma bronca por andar em locais de risco, isso por que? Como um bom adicto eu inventei uma história cabeluda.
Disse que estava entrando na rua da casa de um amigo, e que  ficava próxima a boca de fumo, quando os policiais me pararam e como eu não tinha nada comigo eles forjaram um flagrante para tirar dinheiro dele.

E como se nada tivesse acontecido, meus pais nunca mais tocaram nesse assunto e eu não me preocupei
com o fato de ter sujado a minha imagem nem de ter decepcionado meus pais, nem tampouco deixei de frequentar a boca por causa disso. Acho que de certa forma aquilo contribuiu para a progressão da minha dependência química, pois eu havia perdido a vergonha e o  medo de que as pessoas descobrissem.

Segui em frente tentando levar uma vida normal, porém cada vez mais compulsivo e obsessivo no uso de drogas. No final desse ano a oficina em que eu trabalhava faliu e eu fiquei sem trabalhar até o começo do ano seguinte quando um cara que eu havia conhecido no ano anterior me chamou para trabalhar com ele em uma fábrica de lanchas da qual ele era dono que ficava na Cidade Alta, bairro de Cordovil, zona norte.

2002 foi o ano em que a adicção se implantou de vez, passei a usar nos dias de semana e até dentro do
trabalho. O galpão em que eu trabalhava ficava entre duas favelas muito violentas, uma era a Cidade Alta e a outra que ficava do outro lado da avenida Brasil era Parada de Lucas, esse foi fator determinante pra que eu perdesse de vez o controle sobre a droga e começasse a praticar furtos.



4 comentários:

  1. Olá Heleno. Encontrei seu blog pelo seu comentário no Amandando um Dependente Quimico. Louvável sua atitude de mostrar sua história. É difícil encontrar adictos que se sintam bem em expôr seus sentimentos. Meu namorado também é adicto e está internado há 20 dias. Somos aqui do RS.
    Incrível como as histórias se repetem. Detalhes, pessoas mudam, mas as histórias são sempre as mesmas. Espero que você tenha forças pra lutar contra essa doença que causa tanto sofrimento.
    Já que você decidiu se expor, seja sempre sincero com você e com seus sentimentos, mesmo que não se sinta orgulhoso deles. O tratamento é um processo doloroso, e não acaba nunca, mas vale muito a pena. Que você possa vivê-lo todos os dias. Que Deus te abençoe.
    Também mantenho um blog: recuperacaoepossivel.blogspot.com.br
    Abraço!

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  2. Heleno Vieira, li este poste do seu blog. Foi a minha primeira leitura e me causou uma ótima impressão. A simbologia das imagens me transporta para seu drama particular e o caminho árduo em busca da sua recuperação. Seu caminhar é doloroso. A neve pode ser a frieza de sentimentos de outras pessoas, que segue sua jornada, escalando uma montanha com a determinação de um guerreiro. Começou na planície, solitário e, ainda assim segue em frente. Sabe que não é fácil, mas também sabe que nada é impossível quando tudo podemos naquele que nos fortalece e você vai em frente, decidido. A liberdade começa com o seu conhecimento de que é necessário deixar as drogas. Sua meta você conquistará, vez que já deu os primeiros passos e, em seu relato verifico que você faz revelações que são objeto do quarto passo. Ainda não li outros posts seu, mas considero este espetacular, porque sinto que as palavras brotam do seu coração e verifico que você não é do mal, mas a doença é terrível. Creio que é um adicto que vive um momento, particularmente, complicado. Pessoas precisam de pessoas e sozinho ninguém consegue, mas você crê em um poder superior, capaz de operar milagres em sua vida, que nunca foi fácil. Agora é hora de você, com mente aberta, boa vontade e honestidade buscar o caminho que a esperança lhe faz seguir. Você é forte e capaz de enfrentar desafios maiores, mesmo quando está só e tudo em volta é frio, gelado, mas seus sentimentos são sentimentos de quem teve uma formação boa e você tem valores e princípios que ainda lhe norteiam, apesar de alguns desvios mais sérios de conduta, perfeitamente compreensíveis por adictos. Lhe responderei algo no meu blog, mas adianto que sou amador em matéria de construção de blog. Gostei do mesmo, que tem a marca do seu estilo de vida. Seu texto é muito interessante e gostei e lhe aplaudo como escritor. Uma revelação no campo literário. Estamos juntos, companheiro. Eu gostaria de poder escrever muitas coisas, mas me auto-censuro. Você se solta e retrata a sua realidade com uma narrativa que prende o leito desde as primeiras linhas. Parabéns pelo blog e parabéns pelo texto. Sua vida é bonita e só lhe falta uma fora motriz. Sua trilha é do sucesso, do exito e você vai vencer esta primeira luta que trava consigo mesmo. Jogue a toalha e reconheça que quando usamos perdemos e, o chato é que não gostamos de perder e insistimos buscando provar para nós mesmos que somos imbatíveis e não somos porque as drogas mudam muita coisa dentro da gente e sabemos disso e continuamos em nossa insanidade. Queremos provar a nós mesmos que venceremos a droga. Conheço homens e mulheres que cansaram dessa luta e, sem explicação outra, abandonaram as drogas da noite para o dia. Você já tá com o pé na estrada da recuperação. Siga em frente pois fincara a bandeira da liberdade que busca alcançar coma determinação de um alpinista. O segredo está dentro de você... Continue escrevendo, no seu estilo que é muito bom. faço fé em você, cara. Vá devagar, mas vá na fé!

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  3. Olá Heleno, força continue caminhando os amigos já disseram tudo, só uma observação sobre o blog, se puder escreva com uma cor que destaque da paisagem de fundo pra que fique melhor pra ler...abraços

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  4. Olá Heleno, obrigado por partilhar sua história com a gente...Isso ajuda muito na recuperação de muitos, inclusive na minha...Tamujuntu pela mesma causa....

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